Esse texto/post é longo. Meu intuito é uma série de posts deste tipo usando uma metáfora expressando meu conhecimento (ou a falta dele) relacionada ao desenvolvimento de software de forma geral.

Se de alguma forma esse texto ajudar você, me ajude também: divulgando o post, comentando, me xingando, corringindo o post ou sugerindo histórias para esta série (afinal este blog é repositório Git no GitHub). Acredite, eu também gosto de sair, comprar jeans, toalhas e ocasionalmente tentar construir uma pirâmide Gizé, escrever posts já é cansativo e demanda muito tempo, escrever posts longos assim … mais ainda. =)

Tanto pra falar, porquê uma metáfora utilizar?

Trabalho com desenvolvimento web a alguns anos já, menos do que deveria e muito mais do que eu gostaria. Existem coisas que marcam a existência de um ser, algumas nunca devem ser ditas e outras nunca escritas; sinceramente espero que este texto não seja nenhuma delas.

A alguns anos li um livro que mudaria a minha vida. Diferente de tudo que eu costumava ler, não era um livro de ficação científica mas que ainda assim se encaixava dentro da cultura nerd; ou uma cultura nerd mais verdadeira. Digamos que geeks são os emos/clubbers do verdadeiro rock, o desenvolvimento de software. São meros entuasiastas de uma verdadeira comunidade e ecossistema, uma sombra dela, que muitas vezes duvido que siga as leias da física, mas isso é outro texto (ou não).

O livro em questão é “A Catedral e o Bazar” do Eric Raymond, que por ironia tem o sobrome que lembra Redmond, sede da Microsoft cuja a empresa é o maior exemplo de sucesso de uma Catedral (seguindo a matáfora no livro) e que por pura coincidência (leia: loucura e insanidade) é também a empresa de um infeliz funcionário que um dia perguntou à ele “Quem é você?” e teve a seguinte resposta: “Eu? Sou seu pior pesadelo.”.

A metáfora do livro reinou durante muito tempo e ainda reina, se baseando (de forma muito inteligente, irônica e convincente) em dois grandes grupos de desenvolvimento de software: as catedrais e os bazares. As catedrais possuem sempre monges, são sérias e regidas por uma força maior, o código fonte quase nunca é liberado e quando é, é feito em ocasiões especiais. Já nos bazares, a coisa não tem controle nenhum; cada um faz o que quer e o que acha melhor já que o código fonte está sempre disponível. Se você acha que a Wikipedia foi uma boa idéia, provavelmente também acha que somos mais espertos que os golfinhos e ratos de laboratório. Enfim, se você acha isso, fico triste (minto: fico lisongeado) em te dizer que você está tremendamente enganado.

O livro é só uma das coisas que mudou minha vida, uma outra coisa que valhe ser contada e que mudou minha vida também é sobre a logo do Carrefour (sim, a rede varejista). Eu ainda não acredito que aquilo é um “C”! Porém nada tem a ver o Carrefour, o Eric Raymond, a Microsoft e os golfinhos com um post num blog que li este ano. O post simplesmente se intitulava “Somos jardineiros”. Sim, a idéia não é minha. Não, eu não roubei a idéia de ninguém, simplesmente a adotei porque achava (presunção minha) que a metáfora da Catedral e do Bazar já estava um pouco ultrapassada.

Escrevo este texto com intuito científico, ou seja, baseado na observação e anotação de casos reais. E porque então uso uma metáfora? Diversos motivos: ambientalistas, humanistas, ativistas, loucos ou simplesmente pessoas que não têm gatos, podem querer vir algum dia discutir sobre o bem estar dos envolvidos nos testes; mas confesso também que a pura realidade em nada ajuda a vermos o que já ignoramos o dia todo. Metáfora será então, afinal, eu escrevo essa droga de texto.

Desista agora ou cale-se para sempre. Melhor, cale-se para sempre em qualquer uma das atitudes que tiver em relação ao resto-nem-tão-resto-assim deste texto.

PS: não tenho este texto terminado. Logo, não sei o que vai acontecer, o que vou escrever ou se vou escrever. Se você por algum motivo não conseguir entender isso, entre em contato que (quem sabe) posso providenciar um desenho.

PPS: Se a metáfora que eu adotei não for bem sucedida, irei eternamente dizer que escrevo isso para que meu pai entenda um pouco sobre o que eu faço. Até hoje, ele acredita que todos que trabalham sentados à frente de um computador fazem (mais ou menos) a mesma coisa.
E se algum dia você me ouvir dando essa explicação à esse texto, é porque realmente ele não vale ser lido.

O engenheiro

Como as pessoas têm dificuldades de entender coisas sem personificar um ideal, me vejo obrigado a criar um personagem: o Tim. Nome completo: Tim Idolatra a MicroCasas. O melhor disso tudo é que acrônimos recursivos nunca saem de moda, todo nerd sabe disso! Como sabe que jeans combinam com qualquer coisa e por isso são a única coisa que valha ser comprada no quesito de vestuário assim como as toalhas, mas que não são pecas de vestuário. Ao menos não nesse planeta.

Tim vem de uma família simples, mas que conseguiu colocar ele desde o começo na promissora carreira de engenheiro civil. Ele estudou nos melhores colégios, é um atleta exemplar e um sucesso com a mulherada. Se formou com louvor e criou a MicroCasas para ganhar dinheiro, comprar muitas toalhas, muitos jeans e iPhones.

A MicroCasas é uma empresa de sucesso, muitos anos de mercado, know-how, aperfeiçoamente, concorrências ganhas, casos de sucesso e qualquer coisa positiva que você possa vir a lembrar além de mim. É sinônimo de gerência, controle e qualidade para as demais empresas que estimam construir casa para outros da mesma espécie em troca de papel.

Tim é feliz. Casado, com filhos e até hoje faz parte de um time de futebol com amigos. Comprou o carro que sempre quis, mora na casa que ele mesmo projetou e construiu para ser sua pirâmide de Gizé pessoal. Acho que isso é suficiente para caracterizar um personagem bem sucedido e factível.

Se não for, molde ele a seu gosto, faça o que quiser fazer. Só lembre de se manter calado.

PS: Tim já arquivou um processo contra mim pelo descritivo dele ser muito menor e menos digno do que a do descritivo do Leoj (se você não sabe quem é Leoj ainda, desculpas pelo spoiler).

PPS: O pai do Leoj está defendendo a minha causa na justiça (o que em nada tem a ver com defender as escolhas de Leoj). Estamos (estou) mais tranquilo.

PPPS: Prometo tentar me policiar com relação à spoilers do texto toda hora. Conseguir controlar é uma parte que eu ainda estou um pouco longe de ser capaz de me preocupar.

O jardineiro

Precisamos de outro personagem. Um que seja bem diferente do Tim, mas que pra infelicidade de vocês não será um fracassado. O nome dele? Leoj – Leoj é o Jardineiro. Não disse? Acrônimos recursivos são demais!

O Leoj veio de uma família muito rica de advogados, juízes, magistrados e (porque não) magos. Sofreu obviamente a pressão que toda criança sofre de seguir uma carreira bem sucedida e de bom status social, uma que lhe permitisse construir sua própria pirâmide de Gizé, comprar suas próprias toalhas e jeans. Não tão óbvio foi a escolha que ele fez aos 14 anos de se tornar jardineiro. Os advogados, juízes, magistrados e magos da família não entendem bem até hoje a escolha, mas sabem que a culpa é do sobrinho do jardineiro que sempre ia a casa dele para cuidar do jardim e o ensinou um pouco de como cultivar e fazer crescer um belo jardim.

A verdade seja dita: eu nunca vi uma partida de futebol de anões. Trágico! Mas ainda assim me sinto na obrigação de expressar uma opinião a favor do Leoj. Ele viu nos jardins uma beleza que a família dele e muito poucos vêem. A fascinação de plantar uma semente e ver ela crescer, ganhar vida com sua ajuda aliada ao poder do conhecimento das diversas plantas e práticas existentes para fazer o jardim mais belo para o ambiente mais simples.

Leoj nunca foi muito compreendido, coitado. Na escola sempre odiou as aulas, nenhuma nunca ensinou exatamente o que ele queria aprender e raramente alguma pergunta dele era levada a sério. Aliás, até hoje ele se questiona sobre o problema da matemática ser perfeita e complemente previsível. Questão que o infeliz me faz replicar aqui.

“Se a matemática é tão perfeita, porque ao pegarmos o número 1 e dividirmos infinitas vezes nunca chegamos ao zero? O atrito seria o resultado das forças exercidas por dois corpos se encontrando. Dois corpos se encontram quando a distância entre eles é zero. Se diminuirmos essa distância infinitamente, quando ela chega a zero?”

Preciso ser sincero com vocês: que se dane a questão do Leoj, mas temos que confessar que ele tem certa inteligência de ressaltar isso. Não podemos tirar a razão de dúvida dele, ou podemos e ele é uma mula manca de teta do planeta Vogon. Uma verdade não invalida a outra.

Apesar de tudo, Leoj é feliz também. Mora em uma casa simples que nunca será uma pirâmide de Gizé. Rodeado de plantas, sementes, livros, muita terra e água. Ele também tem sua empresa, a “Flores para todos”. O nome é estranho, mas Leoj jura ser heterosexual. Apesar de nunca ser visto com mulhers, na companhia delas ou sequer olhando pra elas. Diversos já tiraram um sarro por causa do nome da empresa dele, até trending topic do Twitter um dia a “Flores para Todos” foi. Mas Leoj é duro em defender o nome da empresa: ele acredita que compartilhar o conhecimento dele com todos, aceitar sugestão de todos em relação aos conhecimentos que ele têm ou não é de extrema importância. Ele não tira o “para Todos” por nada do nome. O “Flores” é outra história e sim, ele já se arrependeu de ter usado, mas agora é tarde demais.

Não menos importante que toda essa história de vida (que deixa em muito devendo ao Joseph Climber) é o fato de que a empresa de Leoj vai muito bem! O fato dele compartilhar o conhecimento de jardinagem com outros jardineiros realmente rende muitas conquistas e inovações. Graças a isso ele é conhecido no mundo como um dos melhores jardineiros vivos por aí, que possuem número de telefone celular (que não é um iPhone), website e aparecem como um dos primeiros na busca orgânica do Google por “jardinagem” (sem técnicas Black Hat).

Resumindo: Leoj ganha muito dinheiro também. Mas ele só tem uma toalha e um jeans. O resto do dinheiro? Ele geralmente doa a jardineiros que estão começando e que seguem a mesma política de compartilhamento gratuito das técnicas nem-tão-milenares-assim de jardinagem. A outra parte ele usa para comprar sementes (que ele provavelmente já têm), livros (que ele provavelmente já leu e perdeu) e terra. Ele sempre vai acabar precisando de terra.

PS: Leoj mandou uma ressalva. Ele tem sim só uma toalha. Mas ele jura que nunca se desgruda dela já que a mandou costurar junto ao único jeans que ele possui.

PPS: Eu mando uma ressalva agora. Se você não tinha reconhecido a genealidade do Leoj na questão da matemática, física, universo e tudo mais. Por favor, seja honesto com você mesmo e concorde que o ato de costurar a toalha junto ao jeans foi genial.